terça-feira, 19 de maio de 2009

Capítulo 1, pt 1 - Chuva à saideira

Como é difícil ser um insone nessa cidade pateticamente provinciana. Os bares, botequins e qualquer outro tipo de espelunca, tornam-se cada vez mais vitrines, onde os filhos abastados dessa sociedade suja e hipócrita de Belém mostram-se aos de sua própria espécie, enquanto que eu, um desajustado, um marginal, não tenho onde tomar o meu scotch e fumar o meu cigarro em paz. Ainda bem que os inferninhos da Cidade Velha e do Comércio ainda perduram, lá posso repousar toda a frustração de mais um dia de trabalho enfurnado em um laboratório cheio de pessoas preocupadas demais, inteligentes demais, ambiciosas demais, presunçosas demais. Ainda que hoje seja uma noite de quarta-feira chuvosa, como praticamente todas o são neste mês de abril, preciso definitivamente de uma dose. Uma não, duas. E sem gelo.

Bares são a última opção pra se desanuviar a mente, esquecer os problemas – escutando conversas fiadas de pessoas que não levam sorte ou na vida amorosa ou na profissional. Na Cidade Velha então, onde todas as lendas do setor se conhecem e se reúnem periodicamente para atualizar a vida social numa boa rodada de cerveja, baforadas e baralho, a divagação, em especial a minha, se torna mais profunda.
Apesar da chuva e de minha pasta de documentos altamente confidenciais estar completamente molhada, simplesmente me joguei no balcão me desfazendo do meu guarda chuva furado e me apoderei do copo que o garçom centenário me passou. Não queria falar, não queria prestar atenção em nada, não queria arriscar uma corrida para casa em meio aos pingos que castigavam as construções antigas que as ruas estreitas situavam. O meu dia fora tenso, muito trabalho, muitas teorias, mais de cinqüenta tecladas por segundo pra terminar um relatório completamente desnecessário sobre a vida em comunidade de insetos. “Pra quê?” reverberava meu pensamento frenético, porém desatento a toda hora, “já não estudaram isso antes? Trabalhamos com química, não com sociologia biológica.” Aquilo simplesmente não entrava na minha cabeça.
Após um gole demorado e muito bem degustado senti a queimação, o que de algum modo me apurou os ouvidos. Dois senhores que disputavam uma tensa partida de bilhar, localizada ao lado direito do balcão em meio a risadas, farpas e conversa sobre a vida alheia, comentaram sobre uma estranha movimentação de mercadorias no mercado Ver-o-Peso.

– Engraçado. Ontem, quando o Jorge do Pescado foi pegar o carregamento dos peixe pra barraca dele e do Zé, ouviu um barulho distante, próximo ao posto e quando conseguiu organizar as caixa viu uns “dôtor” atracando no porto com uma jangada... tinham umas caixa que diziam que a carga era frágil, mas eles “descarregarum” sem muito esmero sabe?

– É, tô sabendo dessa história. Lá perto da barraca da Cininha era só isso que se falava. Algumas caixa vazia foram deixadas lá perto de onde ela põe os cheiro dela. Sei que parece que não cheirava muito bem não... será que é um novo produto que eles tão bolando? – indagou o senhor rechonchudo com um boné surrado.

[...]

3 comentários:

  1. Agora que começou, não pára mais! =]
    pára ainda tem acento?

    ResponderExcluir
  2. Pra mim continua tendo acento, assim como continuo empregando as tremas! O blog está igual a Lacraia: Não pára, não pára, não pára não até o chãoooo!!! hauaihaiuahaiuahai

    ResponderExcluir
  3. Quero continuar lendo. Gosto disso, desse work-in-process. acho um bom process-to-work!
    Quer ver por onde vai essa história!

    ResponderExcluir